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Pessoas comuns [...] encaram o irreal como sendo real e esperam que o impermanente seja permanente.
Tsele Natsok Rangdröl em “Mirror of Mindfulness”. Fonte: Samsara
Quando Buddha atingiu a Suprema Iluminação,
diz uma lenda que alguém lhe perguntou:
“Vós sois um Deus?”
“Não,” ele disse.
“Vós sois um santo?”
“Não”
“Então quem sois vós?”
Ele então disse:
“Eu sou Desperto.”
Se pegarmos uma pedra que ficou no leito de um rio por centenas de anos e rachá-la, descobriremos que embora a superfície esteja úmida, ela está totalmente seca no meio. Esse é o exemplo da pessoa que estudou, refletiu e meditou sobre o valioso Dharma sem assimilá-lo em seu ser, sendo assim incapaz de vencer suas emoções perturbadoras.
Se somos incapazes de vencer essas emoções, somos como a pedra úmida no exterior mas seca por dentro. O pensamento precioso para se ter em mente é a motivação de praticar o Dharma como um remédio contra nossas próprias emoções perturbadoras. Devemos cultivar essa motivação bem neste instante, não daqui um mês ou um ano.
O que quer que façamos, seja andando ou sentados quietos, devemos nos observar. Devemos ser nossos próprios professores. Se praticarmos o Dharma assim, mesmo se tivermos estudado apenas quatro linhas de ensinamento, ainda haverá grande benefício.
Se falharmos em assimilar verdadeiramente o Dharma em nosso ser, isso serão apenas palavras vazias, embora possamos ser bem habilidosos em falar sobre ou escrever em um estilo eloquente. Já que o Dharma não penetrou de verdade em nossos corações e não temos sido capazes de domar nossas mentes, toda nossa prática do Dharma se torna sem sentido.
A Mente de Sabedoria de Buda é pura e misteriosa. Ela nos protege e, de maneira absoluta, é secreta e impossível de pegar; assim, não pode ser penetrada por mistérios temporários e mundanos.
A Mente de Sabedoria de Buda é desobstruída e sempre beneficia a todos sem intenção por meio da energia de sabedoria pura e misteriosa que permeia a todos os elementos e é sempre livre.
A Mente de Sabedoria de Buda tem um poder misterioso de sabedoria que nunca termina, nunca é bloqueado em lugar algum e jamais é afetado pelos fenômenos explicáveis do samsara.
Se pudermos reconhecer nossa própria essência secreta e misteriosa de sabedoria, que desde o início é a mesma essência secreta e misteriosa de sabedoria de Buda, então a iluminação não é mais misteriosa para nós; porque, inseparáveis de Buda, nós somos o mistério.
O terremoto não pode danificar o misterioso céu, não importa o quanto seu poderoso balançar revire e destrua.
O oceano não pode danificar o misterioso céu, não importa o quanto suas turbulentas ondas inundem e destruam.
O fogo não pode danificar o misterioso céu, não importa o quanto suas raivosas chamas queimem e destruam.
O furacão não pode danificar o misterioso céu, não importa o quanto seus agressivos ventos soprem e destruam.
Buda ensinou no Sutra do Louvor:
- O fim da acumulação é a dispersão.
- O fim da construção é o colapso.
- O fim do encontro é a partida.
- O fim da vida é a morte.
Buda! Ele certamente foi o homem mais extraordinário que um dia já existiu. Jamais deu sequer um suspiro para si mesmo. Acima de tudo, nunca pediu para ser adorado. Ele costumava dizer: “Buda não é um homem, mas um estado de espírito. Eu encontrei o portal. Que todos vocês entrem por ele”.

Alguém destinado a manter os Caminhos,
Após o Nirvana do Sugata,
Aparecerá depois de transcorrido algum tempo.
Sabei que ele será dotado de grande sabedoria.
Na região sulina, na Terra das Palmeiras,
Há de surgir o monge Shriman, de grande renome.
Ele será cognominado O Naga, e destruirá
Os extremos da existência e da não-existência.
Após pregar ao mundo meu veículo
Sob a forma do insuperável Mahayana
E alcançar o estágio da Grande Felicidade,
Ele partirá para o paraíso Sukhavati.
(Lankavatara Sutra)
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O Buda, muito longe de negar que havia um Absoluto, garantiu que aqueles que alcançassem a iluminação deveriam se fundir com Isso e assim perceber a Realidade em oposição ao mundo das ilusões e dos fenômenos. O que ele realmente disse, contudo, que tem levado pessoas a acusarem-no de ateísmo, é que não temos nenhum meio de expressar qualquer coisa sobre Isso. Palavras pertencem ao universo dos fenômenos e são aplicáveis apenas à ele. Quando alguém vai além dos fenômenos, em direção à Realidade, palavras precisam obrigatoriamente ser deixadas para trás. Nenhum ensinamento, nenhuma descrição, nenhum pensamento podem expressar o Absoluto — mas podemos experimentá-lo, se suficientemente evoluídos.
O que Buda combateu foram as numerosas tentativas que foram feitas, estão sendo feitas e continuarão a ser feitas, de dizer que o Absoluto é isso ou aquilo, um Deus pessoal, um Criador, um Deus-Pai. Ele insistentemente recusou responder qualquer pergunta sobre o assunto porque isso era inexprimível em palavras. Ele não iria permitir a seus discípulos imaginar um Absoluto a semelhança deles, como é a tendência do homem em todo lugar. Ele assinalou sutilmente que é melhor se ajustar para tentar alcançar a iluminação e, assim, experimentar o Absoluto por si próprio, em vez de perder tempo tentando ineficazmente falar sobre isso, já que nada que possa ser dito sobre Isso pode ser verdade em absoluto. Palavras iriam inevitavelmente modificá-Lo e moldá-Lo, resultando no máximo em uma aproximação grosseira. Palavras podem ser verdadeiras apenas em certo nível, mas apenas nesse nível, portanto serão apenas verdades relativas. Assim, como um entendimento que só funciona por meio de palavras pode conter o que não pode ser colocado em palavras? Apenas pela experiência direta.
Se esse fato tivesse sido assimilado, às custas do orgulho humano, teria havido muito menos intolerância, violência e sofrimento cometidos em nome da religião, entre os vários adeptos de seus seus próprios credos; todos afirmando de maneira confiante e dogmática que somente eles receberam a Verdade e que todos os outros estão errados e devem ser salvos de sua ignorância voluntária.
…
Então, se não há nenhum Deus no sentido de um Deus pessoal — ou se for compreendido que conceitos de um Deus pessoal, um Criador ou um Deus-Pai, são apenas relativamente verdadeiros e adequados apenas a alguns estágios do desenvolvimento humano — porque há tantas referências aos “deuses” [no budismo tibetano], sugerindo toda uma hierarquia?
A palavra páli “deva” é traduzida como “deus”, mas na verdade significa “espírito”, um ser de um reino superior que, no budismo, pode influenciar seres humanos, ajudar e protegê-los. A Terra não é o único mundo de seres da cosmologia budista. Há incontáveis universos em diferentes planos de existência, isto é, em diferentes estágios de desenvolvimento (espiritual). Alguns são mais elevados que nós (que somos a maioria). Alguns são inferiores. Há muitas referências a seres humanos renascendo em reinos superiores ou inferiores.
Mas, no budismo, não há lugar para a hierarquia massiva da religião Hindu, que acrescentou o próprio Buda a essa hierarquia (até os cristãos fizeram Dele um dos seus santos), nem para a Trindade de Criador, Preservador e Destruidor, nada exceto um Absoluto inexprimível. Em Sua direção as pessoas estão evoluindo ou involuindo, alguns se tornando espíritos de planos superiores, outros afundando em mundos inferiores. E todos pertencem ao mundo dos fenômenos, não à Realidade. Apenas o Absoluto é Real. E nem podemos realmente dizer isso sem declarar algo menor que a Verdade. Mas Ela está lá para ser realizada por alguém com o desejo e determinação como os de Milarepa.
…
Todo ser humano, todo ser, é um Buda em potencial. Depende de cada um realizar sua própria Natureza Búdica.
Lobzang Jivaka em “The Life of Milarepa”. Fonte: Samsara
Um turista foi na casa de um monge budista para conhecê-lo.
A casa não tinha quase nada e ele perguntou ao monge:
“Onde estão as suas coisas?”.
O monge respondeu com a mesma pergunta
“E as suas?”. O turista inconformado com a comparaçao disse:
“mas não tem nada a ver, estou aqui de passagem”
e o monge com um sorriso disse:
“Eu também”.
